

02-08-1999
Depois de uma conversa em família, o meu irmão e eu, fomo-nos deitar (1h da manhã).
Vira para aqui, vira para ali, não havia meio de adormecer. Para melhorar, a asma resolveu atacar, é sempre muito oportuna, sai a mim.
Finalmente, adormeci, mas não por muito tempo.
Às 2 horas em ponto, ouve-se o telefone. Acordei, mas fiquei imóvel.
Foi a minha mãe que atendeu, nunca me perdoei por isso.
O meu pai foi logo ter com a minha mãe, não precisaram de dizer o que quer que fosse, aquele silêncio foi esclarecedor.
Ouvi os meus pais a soluçarem. A minha mãe quase nunca chora, aí fiquei com a certeza do que se estava a passar.
Levantei-me, sem acordar o meu irmão, fui-me aprontar, tudo de uma forma tão automática, que ainda hoje, não me lembro como o fiz.
Fui ter com os meus pais, perguntei-lhes se a tia Ró (irmã da minha mãe) já sabia, disseram que iam telefonar ao meu tio. Entretanto o meu pai, começou a dizer, que ia tudo ficar bem, que tinha sido melhor assim, …
E lá estava eu, branca (quer dizer, ainda mais branca), aparentemente calma e sem verter uma única lágrima (foi o meu erro, só voltaram passados 3 ou 4 anos).
O meu tio chegou, levou-me e à minha mãe, até casa da minha tia (que já sabia de tudo), depois voltou a minha casa para, juntamente com o meu pai, darem a notícia ao marido da minha tia Né, que estava a dormir em minha casa.
Entretanto, na casa da tia Ró, lá estávamos nós, a olharmos uns para os outros, à espera que a minha avó acordasse, para lhe dizermos.
A Inês, com apenas 10 meses, estava no meu colo, a estranhar o meu comportamento… olhava, olhava, olhava, fazia-me as brincadeiras que eu lhe costumava fazer … lá tentei um sorriso pálido e fomos ver os desenhos animados.
A minha mãe e a tia Ró já estavam a falar com a minha avó. A Rita (a minha prima, filha da tia Ró e mãe da Inês), a Inês e eu, lá fomos ter com elas. A minha avó sorriu-nos, o melhor que pôde, e disse que queria avisar aos amigos mais próximos, que a filha tinha morrido.
Aí, “caiu-me tudo”, que coragem!
Eu, a Rita e a Inês ficamos com a minha avó e com a lista de contactos. Malditos telefonemas, cada um era como uma facada, mesmo na ferida.
Os meus pais e os meus tios foram ter com os meus primos (filhos da tia Né), ao Porto.
Lá se passou o dia, cheguei a casa e o meu irmão disse:
“Manelinha, a tia está melhor?”.
Respondi-lhe com toda a raiva que tinha: “Está muito bem, está… pelo menos, agora não está a sofrer, não é… os mortos não melhoram, meu palerma!”
Coitadinho, nunca me passou pela cabeça, que ele não soubesse… sabia que ele não tinha acordado com o telefone (ao contrário de mim, dorme como uma pedra), mas, caramba, ninguém lhe disse? Ele não estranhou aquele movimento todo? Pois não, e ainda hoje é assim, se não lhe dissermos, letra por letra, ele tenta acreditar que está tudo bem.
No dia seguinte, fui ter com os meus primos, para os apoiar.
O caixão tinha que ser fechado, para ser chumbado.
Dos três filhos, só o Zarco quis ver a mãe no caixão. O Pedro e o Zé saíram por um bocadinho.
Lá fui, toda forte ao lado do Zarco, mas quando comecei a ver a minha tia, dava um passo para a frente e dois para trás (rica ajuda que eu fui).
Como se isto tudo não bastasse, ainda tínhamos o “desfile” de condolências.
Quem raio inventou isto, quer dizer, está uma pessoa a acabar de se recompor, e lá vem mais um cromo (que não se conhece de lado algum), dar os sentimentos, mais uma mãozada, mais dois beijinhos, … e eu a passar-me, a ver os meus primos, a minha avó, os meus pais, o meu irmão, os meus tios, a sofrerem e, ainda por cima, a terem que ser simpáticos com aquela gente toda, a maior parte, uns ilustres desconhecidos.
Pelo meio, eu e a Rita ainda trocamos uns olhares cúmplices e duas risadas, disfarçadas de tosse. Não é que apareceu lá um ex-namorado da minha tia Né? Ainda disse à Rita: olha o "tio", está pior que o viúvo. E mais, o meu primo Zé, conseguiu juntar três ex-namoradas e a actual, era ver qual delas chorava mais.
Pois é tia Né, até no seu funeral, juntou as ex-norinhas e o próprio do ex.
É o que dá ser umas das melhores pessoas que conheci, fez bem a toda a gente: família, amigos, alunos, funcionários, vizinhos e até a desconhecidos.
Por isso, teve tanta gente a quer vê-la, mais uma vez.
Ai tia, dez anos, dez longos, demorados, penosos, difíceis, dolorosos e saudosos anos, sem a ver. Mas, sempre a falar consigo, a pedir conselhos, a desabafar, a pedir pelos meus e por mim.
Que falta me faz, e não digo isto por me ter “estragado” com mimos, por esconder sempre as minhas asneiras, por me comer aquela sopa horrorosa de peixe, por “meter” cunhas aos meus pais para me deixarem sair ou para me comprarem alguma coisa.
Fez-me falta, quando entrei para a faculdade e no tempo que lá estive (tínhamos tantas coisas combinadas), acabei o curso, dei aulas pela primeira vez, quando perdi as minhas avós, nesta luta estúpida que este governo nos impôs, nos dissabores da vida e em tudo de bom que me tem acontecido.
E no nascimento dos meninos?!
No da Joaninha, a Rita fez questão de colocar a mantinha que a tia deu à Inês, reconhecia logo, fui eu que a comprei.
Quando nasceu o seu primeiro neto, o Alexandre, foi um misto de alegria e dor, foi tão estranho não ver lá a tia.
Pior ainda, quando nasceu o nosso pequenino, o Dinis. Quando o fomos ver ao hospital, só lá estavam os primos, fiquei tão triste ao vê-los sós. Foi a dez dias da minha avó falecer (cá está o 10, outra vez, maldito 10!)
O que mais me faz falta é o seu olhar doce, o seu sorriso cúmplice, a sua presença!
Como não lhe posso dar grande coisa, deixo-a com as suas flores favoritas: rosas amarelas, acompanhadas de um grande beijo!